Em meio a tantos debates sobre alfabetização, uma pergunta precisa ser feita com honestidade: estamos ensinando com base no que funciona ou no que acreditamos que funciona?
A ciência cognitiva da leitura avançou significativamente nas últimas décadas e hoje oferece evidências consistentes sobre como o cérebro aprende a ler e escrever. Ignorar esse conhecimento não é apenas uma escolha pedagógica, é comprometer, na prática, a aprendizagem de muitas crianças.
Aprender a ler e escrever é um processo cognitivo estruturado
A leitura não é uma habilidade natural. Diferente da linguagem oral, ela precisa ser ensinada.
De acordo com Stanislas Dehaene, o cérebro precisa “reciclar” circuitos neurais originalmente destinados a outras funções para que a leitura aconteça. Esse processo exige:
- atenção direcionada
- prática sistemática
- instrução explícita
Ou seja, não basta exposição: é necessário ensino estruturado.
A escrita como ferramenta de aprendizagem (e não apenas de expressão)
Um dos pontos centrais evidenciados na literatura é que a escrita não é apenas resultado da alfabetização, mas parte ativa do próprio processo de aprendizagem.
Quando a criança escreve, ela analisa os sons da fala, segmenta palavras e estabelece relações entre fonemas e grafemas.
Isso pode ser observado, por exemplo, quando uma criança tenta escrever a palavra “bola” e registra “BLA”. Mesmo não convencional, essa escrita revela um esforço de análise sonora e indica que ela já começa a perceber partes da palavra.
É nesse processo de tentativa, erro e reflexão que a aprendizagem se fortalece.
Em outras palavras: quem escreve melhor, aprende melhor, e lê melhor também.
Consciência fonológica e o modelo de fases de Ehri
A literatura é praticamente unânime: sem consciência fonológica, não há leitura eficiente.
Na prática, isso significa ensinar a criança a manipular os sons da fala de forma consciente. Por exemplo, ao pedir que identifique o som inicial da palavra “casa” ou que diga o que acontece quando retiramos o /p/ de “prato”, o professor está ajudando o aluno a perceber que a fala pode ser segmentada e analisada.
De acordo com Linnea Ehri, o desenvolvimento da leitura ocorre por fases, que representam o fortalecimento progressivo das conexões entre letras e sons:
- Fase pré-alfabética – A criança ainda não compreende a relação entre letras e sons e reconhece palavras por pistas visuais.
- Fase alfabética parcial – Começa a perceber algumas relações entre letras e sons, ainda de forma limitada.
- Fase alfabética completa – Estabelece correspondências mais precisas entre fonemas e grafemas.
- Fase alfabética consolidada (ortográfica) – Reconhece palavras de forma automática, com base em padrões maiores.
Esse avanço não ocorre de forma espontânea, depende de ensino explícito e prática sistemática.
O cérebro aprende por conexões (e não por exposição)
Um erro ainda bastante presente na prática pedagógica é acreditar que a simples exposição à leitura é suficiente para que a criança aprenda.
Apesar dos avanços da ciência cognitiva, essa ideia continua sendo reproduzida em muitas salas de aula, sustentada mais por tradição do que por evidência.
O problema é que o cérebro não aprende por exposição passiva, mas pela construção ativa de conexões entre:
- grafemas (letras)
- fonemas (sons)
- significados
É esse processo que permite sair de uma leitura lenta e imprecisa para uma leitura automática e fluente.
O papel dos gestos articulatórios: quando o corpo entra no processo
A alfabetização também envolve o corpo.
O uso de gestos articulatórios, observar e produzir os movimentos da fala, ajuda a criança a perceber melhor os sons e construir representações mais precisas.
Por exemplo, ao trabalhar o som do /f/, o professor pode orientar os alunos a observar o posicionamento dos lábios e o fluxo de ar, tornando o som mais concreto e perceptível.
Isso reforça que aprender a ler e escrever envolve integração entre percepção, linguagem e ação.
Diferentes ortografias, diferentes desafios
Nem todas as línguas apresentam o mesmo nível de transparência ortográfica.
Em línguas mais regulares, como o italiano, a correspondência entre letras e sons é mais direta. Já em sistemas mais complexos, como o inglês, essa relação é menos previsível.
Isso implica que o ensino deve considerar:
- as características da língua
- o nível de complexidade das correspondências
- estratégias adequadas ao sistema de escrita
O papel do professor: mediação intencional que transforma a aprendizagem
A evidência é clara: o professor não é o único fator da aprendizagem, mas é um dos mais determinantes dentro do contexto escolar.
Ainda assim, é comum observar práticas que diluem esse papel, como se a aprendizagem dependesse predominantemente da autonomia do aluno ou do simples contato com materiais ricos.
Essa visão, embora bem-intencionada, pode enfraquecer a mediação docente justamente no momento em que ela é mais necessária.
Organizador da atenção e do processamento
O cérebro não aprende tudo o que vê, aprende aquilo que recebe atenção suficiente.
Na prática, isso implica que o professor precisa direcionar explicitamente o foco do aluno. Por exemplo, ao apresentar uma palavra, não basta lê-la: é necessário destacar seus sons, apontar cada letra, modelar a leitura e orientar o que deve ser observado.
Quando o ensino é claro e bem estruturado, há menor sobrecarga cognitiva e maior chance de aprendizagem significativa.
Implicações práticas: o que precisamos fazer diferente?
Com base nas evidências, algumas direções são inegociáveis:
- ensinar explicitamente as relações letra-som
- trabalhar consciência fonológica de forma sistemática
- incluir a escrita desde o início do processo
- usar múltiplas pistas (auditivas, visuais e motoras)
- organizar o ensino em progressão clara
Ensinar explicitamente significa não deixar que o aluno descubra sozinho aquilo que pode ser ensinado com clareza.
Por exemplo, ao introduzir a letra “M”, o professor pode apresentar seu som, associá-lo a palavras conhecidas, propor atividades de identificação auditiva e, em seguida, avançar para leitura e escrita de sílabas e palavras simples.
Essa progressão intencional favorece a consolidação das aprendizagens.
O professor como mediador das conexões linguísticas
A alfabetização depende da construção de conexões entre letras, sons e significados, e isso precisa ser ensinado.
O professor atua ao:
- ensinar relações grafema-fonema de forma explícita
- desenvolver consciência fonológica
- apoiar a progressão pelas fases de Ehri
- garantir prática até a automatização
Sem essa mediação, muitas crianças não conseguem avançar sozinhas.
Ensinar bem não é improvisar, é planejar com intencionalidade.
Nem tudo depende do professor, mas muita coisa passa por ele. Embora existam fatores externos, o professor é quem:
- amplia oportunidades
- reduz desigualdades
- garante acesso ao conhecimento
Quando sua prática é intencional, o impacto é real.
Por fim, alfabetizar não é apenas ensinar letras.
É estruturar caminhos no cérebro para que a criança compreenda, interprete e use a linguagem com autonomia.
Quando ensinamos com base em evidências, não estamos apenas alfabetizando, estamos transformando trajetórias.
A questão que permanece é: estamos, de fato, dispostos a ensinar a partir do que a ciência mostra, ou continuaremos sustentando práticas que, embora familiares, não garantem que todas as crianças aprendam?
Referências
- Stanislas Dehaene. É assim que aprendemos
- Linnea Ehri (2005). Learning to read words
- MARIOTTO, A.; ARFÉ, B. In: SARGIANI, R. (org.). Alfabetização baseada em evidências: da ciência à sala de aula. Porto Alegre: Penso, 2022.